sábado, 28 de setembro de 2013

43% dos alunos ‘alfabetizados’ não sabem ler


Eu costumo usar as palavras rico, grandioso e solidário pra fazer referencia ao Brasil, mas isso é só uma fala.

A verdade é que vivemos num país onde extraordinários 43% dos alfabetizados não sabem ler, mais de 50% dos municípios não possuem esgoto tratado e 1/3 das Câmaras, Assembleias e Congresso Nacional estão nas mãos de processados ou condenados em alguma instância do poder judiciário.

Como dar jeito em um país desse?


Chatice crônica 

“Parei minha moto no shopping, roubaram a tampa da válvula do pneu. Tinha uma ótima tesoura Tramontina para tosar meus cachorros, mas alguém a trocou por uma de pior qualidade. O médico me mandou tirar radiografia desnecessária só para gastar dinheiro do plano de saúde. Minha revista semanal sumiu na portaria do prédio…”
A prosaica semana de um leitor carioca de um bairro de classe média, tão banal e parecida com a de milhões de brasileiros, mostra como o roubo e a sem-vergonhice estão arraigados na nossa cultura, atrasando o crescimento do nosso IDH, por mais que se invista em educação, tecnologia e infraestrutura. Mas não estamos condenados a essa cultura que privilegia a mentira e a fraude, que aos poucos vai cedendo aqui e ali por força da lei, da policia e da Justiça, e aos trancos e barrancos o Brasil vai melhorando.
Há quem acredite que o Brasil está rico, poderoso, soberano, solidário, mas 43% dos alfabetizados não sabem ler, mais da metade das cidades não tem esgoto tratado, 1/3 das Câmaras Municipais, Assembleias Estaduais e Congresso Nacional estão nas mãos de processados ou condenados pela Justiça. O que esperar dessa gente?
Ao contrário da cultura legal anglo-saxônica — baseada no pressuposto que o cidadão está dizendo a verdade e sabe que vai sofrer graves consequências se não estiver —, no Brasil a ideia básica é que, em principio, todos podem, e devem, estar mentindo, daí a necessidade de tantas exigências de provas e documentos e assinaturas e autorizações e controles e fiscalizações, que aumentam a burocracia e, com ela, a corrupção. Somos o país do “minto, logo, existo”.
Só aqui há documentos que precisam de “firma reconhecida” e outros que exigem a presença física no cartório, como se umas fossem “sérias” e outras não, mas as fraudes não diminuem. Por essas e outras abrir uma empresa no Brasil leva vinte vezes mais tempo do que nos Estados Unidos ou no Chile.
A verdade, caros leitores, é que são vícios crônicos inspirando uma crônica chata, resultado de muito trabalho vão e de um grande esforço para não falar do mensalão. Paciência, semana que vem melhora.
No Brasil a ideia básica é que, em principio, todos podem, e devem, estar mentindo. Somos o país do minto, logo, existo”.



 Texto de Nelson Motta publicado no Jornal O Globo*

Taxa de analfabetismo para de cair no Brasil após 15 anos


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Educação: Dados do analfabetismo no Brasil



Reviravolta no PNE

Agilidade da aprovação do relatório na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania divide opiniões; especialistas afirmam que novo texto desresponsabiliza a União com o financiamento.

Quem acompanha a tramitação do Plano Nacional de Educação, discutido desde 2010, certamente ficou surpreso ao ver o andamento da matéria acelerar no Senado no mês de setembro. A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) aprovou o relatório do senador Vital do Rego ao projeto do PNE 2011-2020. O texto recebeu somente um voto contrário, do senador Randolfe Rodrigues (PSOL/Amapá). Agora, o projeto, que mantém na redação os 10% do PIB para a Educação, está a apenas uma etapa da votação no plenário: em novembro deste ano, o PNE deve passar pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE), cujo relator será o senador Álvaro Dias (PSDB/PR).

 Diante de uma discussão que já dura três anos, a agilidade do Congresso no segundo semestre de 2013 para apresentar e aprovar a atual redação dividiu opiniões. Algumas entidades sindicais comemoraram pela retomada da pauta. Mas muitas outras se posicionaram publicamente contra o relatório aprovado na CCJ, pois ele manteria a desresponsabilização da União com o financiamento do PNE. É o caso da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que representa dez associações, entre elas a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Segundo Daniel Cara, coordenador da Campanha, aprovar o PNE como ele está é aprovar um plano sem utilidade. "A CE vai fazer mais um relatório, que pode ser melhor ou pior do que o texto aprovado pela CCJ e, mesmo que seja melhor, o governo pode pedir que siga para a votação no plenário a redação aprovada na CCJ", explica. "Vamos tentar pautar a CE sobre os equívocos do documento da CCJ", acrescenta.

Para Luiz Araújo, mestre em políticas públicas e professor da UnB, a possibilidade de o texto aprovado em setembro ser escolhido pelo governo para a votação em plenário é grande. Em seu blog na revista Escola Pública, Araújo explica que o relatório do senador Vital do Rego retira a Estratégia 20.8, que determinava a complementação da União para conseguir viabilizar o Custo Aluno-Qualidade Inicial (CAQi) - mecanismo definido pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação para ser referência de padrão mínimo de qualidade na Educação Básica.
Atualmente, o CAQi aguarda a homologação do MEC para se tornar uma Resolução. De acordo com uma nota técnica publicada pela Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), a supressão dessa parte do texto também tira do Estado a responsabilidade pela expansão do ensino técnico profissionalizante de nível médio (Meta 11) e pela educação superior (Meta 12).  
Araújo também analisa que o texto deixa clara a inclusão do setor privado nos subsídios, bolsas, isenções fiscais e financiamento estudantil previstos nos 10% do PIB para a Educação, contrariando a redação aprovada na Câmara dos Deputados, que destinava o percentual somente para o ensino oferecido na rede pública.
Sobre a meta 4, que trata da universalização do acesso à educação para crianças e jovens com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, o texto atual afirma que se deve assegurar "o atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino". Araújo avalia que a redação enfraquece a prioridade de atendimento inclusivo e cede à pressão de entidades que se dedicam a crianças e adolescentes deficientes, como as Apaes.

 revistaeducacao.uol.com.b

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O desafio da classe digital

Apesar de amplamente disseminada fora da escola, a tecnologia ainda custa a entrar na sala de aula; entenda por que isso ocorre e conheça exemplos de iniciativas

Embora a tecnologia esteja disseminada fora da escola, aplicá-la em sala de aula ainda é um desafio para os educadores. Mesmo em São Paulo, a maior cidade da América do Sul, são poucos os colégios que aplicam – com planejamento, seleção adequada de materiais e capacitação de professores – recursos digitais além do uso simples de computador e iPad.


"Infelizmente, o uso da tecnologia com qualidade em sala de aula ainda é pequeno. Isso acontece por dois motivos principais: o primeiro, a falta de capacitação dos professores para utilização das tecnologias digitais; segundo, a falta de infraestrutura tecnológica adequada nas escolas, como Wi-fi de qualidade", explica Martha Gabriel, pesquisadora em tecnologias da educação e autora do livro Educ@r – A Revolução Digital na Educação.
Para Martha, a falta de treinamento é, entre os dois fatores, o maior gargalo. "Professores capacitados superaram infraestrutura deficiente, mas nenhuma infra, por melhor que seja, é usada – e bem aproveitada – sem capacitação.
Segundo ela, embora o uso da tecnologia ainda parte mais da ação individual do professor do que das escolas, as instituições estão se mobilizando, no Brasil e no exterior, para abraçar o digital não apenas na sala, mas em um projeto educacional mais amplo.
Abismo. As instituições, por sua vez, relatam resistência dos docentes mais antigos e observam que há um fosso entre as práticas ensinadas aos novos professores nas universidades e a realidade da sala.
"Há um descompasso geracional. Ainda se usa muito a tecnologia para replicar modelos que não dão certo. A escola tem de formar o aluno para que ele traga a demanda tech e use a favor do conhecimento. É difícil fazer, mas muito pior não fazer", afirma Valdenice Minatel, coordenadora do Departamento de Tecnologia Educacional do Colégio Dante Alighieri.
Na tentativa de driblar os obstáculos, algumas escolas criaram coordenadorias específicas para a tecnologia educacional, como o Colégio Porto Seguro. "Para cada R$ 1 que gastamos com aparelhos digitais, outros R$ 5 são investidos na formação dos docentes. É um desafio. Ainda não sabemos se os alunos aprendem mais dessa forma, vamos descobrir na prática", diz Renata Pastore, diretora de Tecnologia Educacional do Porto.
Nesse colégio, os alunos de 5 e 6 anos transformaram tabuleiros usados no aprendizado das sequências numéricas, feitos por eles com cartolinas, em jogos eletrônicos. Fotografaram os desenhos das trilhas, gravaram os áudios e montaram os jogos com a ajuda de um aplicativo gratuito.
"Fiquei muito feliz ao ver meus alunos participando ativamente de todas as etapas do aprendizado. Além dos objetivos da Matemática, eles estavam aprendendo, em uma única atividade, Linguagens e Informática", diz a professora Maria Fernanda Reis Balugani.
No Porto, alunos de 2 e 3 anos interpretam textos com auxílio da tecnologia. Após lerem O Caso do Bolinho, da escritora Tatiana Belinky, eles jogaram games, desenvolvidos pelas professoras, com os elementos da obra. Muitos ajudavam os colegas a completar o jogo nos tablets, recontando uns para os outros a história.
No Colégio Santa Maria, no Jardim Marajoara, as crianças do 4.º ano do fundamental fizeram interpretação de texto em outro formato. Primeiro, aprenderam a programar histórias em quadrinhos virtuais. Depois, recontaram contos da escritora Ana Maria Machado. "A gente deu uma adaptada nas falas para ficar mais atual", conta Matheus Siqueira de Azevedo, de 9 anos.
Stop motion. Também no Santa Maria, a professora do 8.º ano Andreia Pistori, de Artes, tratou de Modernismo e Abstracionismo no Brasil de um jeito diferente. Pediu que os alunos fizessem filmes em stop motion (técnica de animação quadro a quadro, feita com sequências de fotografias) da obra A Morte do Abaporu, de Tarsila do Amaral. Eles modelaram em massinha os elementos da pintura. "Não deixei de dar a teoria, mas ensino os alunos sobre arte na prática e de uma forma totalmente nova para eles.
No Colégio Pueri Domus, o professor de Biologia Gabriel Antonini passou um longo período fazendo testes e curadoria do material tecnológico que apresentaria aos alunos. "Não basta ser bonito, tem de acrescentar." Foi com um aplicativo 4D que ele conquistou tanto alunos – da sua sala e de outras – quanto pais. Apontando a câmera do celular ou do tablet para um desenho impresso em uma folha sulfite, ele consegue mostrar diversos sistemas do corpo humano em 4D. "Consigo explicar de uma forma muito melhor, já que é proibido no Brasil a dissecação de mamíferos", diz.
Thales César Giriboni, de 16 anos, do Dante, se interessou tanto por tecnologia que passou a desenvolvê-la para os professores e colegas. Ele construiu uma agenda eletrônica capaz de sincronizar os dados personalizados dos alunos, como compromissos diários e planos de estudo, com as tarefas de toda a turma. "Quem perdeu a aula, pode ver depois o que foi ensinado, se foi dada prova ou não."
Giriboni foi o que os educadores chamam de "protagonista" do próprio conhecimento. É exatamente isso, apostam, que a tecnologia com qualidade dentro da sala de aula poderá disseminar.

Estadão.edu